Berros, silêncios, palavras

Há quem grite diante do medo e do horror. Há quem fique paralisado, com a língua travada entre todos os significados perdidos, entre o que não foi dito para evitar os nossos dramas, entre o que foi feito para cometer as nossas tragédias. Poucos são aqueles que diante da enormidade da guerra possuem a tenacidade da palavra teimosamente pacífica, a força da palavra paciente, capaz de atravessar tempestades com confiança na brisa que voltará a soprar.
“Se o vento berra contra, eu berro contra o vento”, avisa um mural no meio do meu caminho. Recordo que em algumas culturas indígenas o diálogo é marcado por três momentos: palavra, silêncio, resposta. O silêncio ocupa um espaço de tempo análogo ao da palavra, por consciência de que aquilo que é proferido precisa ser digerido, meditado, e só então respondido. A cultura da velocidade, do impulso e da raiva ignora tais valores, deixando-se envolver pelos redemoinhos das emoções brutas, que não mereceram o tempo dos ventos perenes, que esculpem rochedos e modelam as paisagens com relevos sinuosos.
Toda vez que passo algum tempo em silêncio, busco a paciência para entender essa minha necessidade ancestral de não ceder ao impulso de preencher a folha branca do papel e não ocupar o espaço digital com mensagens que irão preencher os meus olhos de letras que não serei capaz de metabolizar. Silencio não por mudo protesto, não por espanto paralisante, mas para metabolizar a complexidade dos eventos estratificados de palavras, de fatos, de violências e de horrores. Silencio para elaborar uma resposta especular, que me faça acreditar em fatos capazes de desfazer o mal, criar humanidade, salvar o mundo. Que o redemoinho não se desfaz com berros, que a brisa se faz com a suavidade da escuta acolhedora e da palavra tocando a pele com cuidado, refrescando os nossos sentidos.
Para que as guerras comecem são necessárias palavras de ódio que mobilizem os nervos antes das agressões cometidas. Para que as guerras terminem são necessárias palavras que convençam os corações de que a nossa humanidade distingue-se pela capacidade de diálogo, pela língua: não pelos dentes, pelas garras e pelas armas que o engenho humano desenvolveu em sua ânsia de conquista, de controle, de destruição recíproca.
Eu não busco a felicidade, mas as palavras que construam a felicidade. Eu busco a paz que começa na compreensão de uns com os outros, nas palavras que uso para me explicar e no silêncio que pratico para ouvir, dando sentido ao que toca os meus tímpanos. Eu busco uma engenharia da palavra, uma psicologia da palavra, uma sociologia da palavra, uma filosofia da palavra, um exercício da palavra, uma constituição da palavra. Busco a sua intimidade, os seus segredos, a sua alma. Enquanto estiver nessa busca, o meu corpo e a minha mente não poderão ser ocupados pelo seu contrário. Enquanto estou na busca da palavra sou vitoriosa: não por ter vencido alguma guerra, mas por não ter cedido ao ódio, por não ter caído nos maniqueísmos que nos arrebatam para a superficialidade ciclônica do mundo, esquecendo que todo vórtice bélico é uma espiral de acúmulos, de rancores, de história, de dores.
Se o vento berra contra, eu calo. Espero. Penso. Busco. Seria mentira dizer que tenho uma resposta. Ninguém tem. Acrescento uma palavra. Construo brisa. Ouço. Recebo a brisa de uma palavra fresca. Não acabo. Não coloco ponto final. Sou humana, e falo, e ouço, e escrevo, e amo, e vivo.

Gislaine Marins
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